Mostre-me um exemplo Profissão: Mãe!: Crônicas
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Orelha e as Ondas

Sentada numa poltrona de avião, em direção à Bienal do Livro do Rio, observo pela janela a paisagem reduzida à condição de miniatura.
Na fileira à minha frente, um casal. Pelo vão das poltronas me chama a atenção a orelha do homem. Não uma orelha qualquer. Enorme, esparramada, impondo sua presença.
Volto a cabeça para a janela. A praia, daqui de cima, parece uma pintura; estática, com ondulações escuras e pinceladas brancas. Num quadro, me pareceriam artificiais demais. Fixo o olhar nas ondas. Congeladas. Olho um pouco mais atrás, para as ruas. Com esforço consigo perceber o movimento dos carros. Por que não o das ondas? Cismo com a  frigidez das vagas. Impossível não perceber a eterna incerteza do mar, no seu ir e vir.
Seria por estarmos passando rápido demais sobre elas? Sempre fui péssima em física.
Se percebo o movimento dos carros, como não conseguir ver a turbulência das águas?
Calculo que a velocidade de um veículo numa estrada é de aproximadamente noventa  quilômetros por hora. Se uma onda tivesse essa velocidade, mataria qualquer banhista. Concluo que essa seja a questão. Velocidade do avião, somada a dos objetos abaixo.
Olho para frente.
A orelha me incomoda. Se move mais que as ondas. Ocupa todo o espaço do vão.
O marido fala o tempo todo, olhando para a mulher.
A orelha me encara.
Imagino se passaria desapercebida em um homem lindo - que não é o caso.
Duvido muito. Sem contar que, sendo seu dono um cidadão de meia idade, ela ainda crescerá muito mais. Nariz, queixo e orelhas crescem com a velhice, sabiam?
Sempre que vejo um jovem muito narigudo me pergunto como ficará quando velho...
Se ao menos a orelha não me incomodasse tanto, não precisaria ficar olhando peja janela, e não ficaria me questionando sobre o porquê do mar estar brincando de estátua.
Da próxima vez que for embarcar, vou pedir um assento na primeira fila, ou atrás de alguém de orelha pequena.


bjo,

dany